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Criança (não) tem querer!

Vou começar do começo: crianças são pessoas. Pode parecer estranhamente óbvio reafirmar, mas boa parte das vezes esquecemos das implicações disto. Elas são pessoas! Não pessoas adultas, com todos os deveres, responsabilidades, obrigações civis, ocupações domésticas e profissionais de gente-grande, mas ainda assim pessoas. Porque então esquecemos desse detalhe e usamos de certas “premissas” sobre elas que desconsideram um fato tão básico? Hahaha… A gente (adulto) tem umas amnésias as vezes, né? Credo! 👀

Pois bem, queridos adultos que me leem, esse texto é sobre entender que a gente precisa tratar criança como gente. E é desse lugar que quero refletir sobre uma frase que se usa bastante no dia-a-dia com os pequenos: 

O tal “não, tu não tem querer!” 

(Respiro profundo). Deixa eu te dizer: Sim, ela tem! A criança tem querer s-i-m s-e-n-h-o-r, ela tem vontades. E ela pode expressar as vontades. Aham, ela pode. Isso NÃO SIGNIFICA que você irá ATENDER a todas essas vontades. Ao mesmo tempo, o fato de que você não irá atender a todas as vontades, não significa que deve dizer/pensar que não existem.

Vamos de exemplo, rapidão aqui! Dia frio. Casa da vó. Piscina. Criança quer entrar na piscina. Segue o diálogo:

(Criança) – Eu quero ir na piscina.

(Adulto) – Hoje está frio, não vamos entrar na piscina.

(Criança) – Mas eu querooooo…

(Adulto) – Tu não tem querer! Não vai entrar e ponto! 

(Vocês também tão ouvindo o choro depois dessa frase?) 

Repete essa frase aí uns 10 anos, umas 2 vezes ao dia. Corta pro futuro. Quando a psicóloga pergunta pro adulto de 40 anos o que ele quer da vida dele, ou o que ele gosta/não gosta, ele simplesmente não tem resposta. Não sabe. Não faz nenhuma ideia. É aí que me refiro: como a pessoa vai “saber o que quer” se toda construção subjetiva dela na infância foi na base do “tu não tem querer”? Faz como gente? Hein?! Haja terapia senhores! Haja terapia!

Agora corta. Volta pra história da piscina no dia frio. E se o diálogo fosse mais parecido com: 

(Criança) – Eu quero ir na piscina.

(Adulto) – Hoje está frio, não vamos entrar na piscina.

(Criança) – Mas eu querooooo…

(Adulto) – Sim, eu entendi que tu queria muito entrar. Ao mesmo tempo, como está muito frio, se a gente entrar pode ficar bem doente. Então, hoje tu não pode entrar na água, quando estiver calor poderemos aproveitar.

(Criança) – Mas eu queroooo….

(Adulto) – Sim, eu sei. É bem ruim mesmo quando a gente não pode fazer uma coisa que a gente queria muito

(Talvez isso também virasse um caos, com choro, esperneio e afins… e aqui registro toda minha solidariedade aos pais e mães nessas horas, afinal não é tão simples – como alguns inocentes acreditam ser – essa tarefa de acalmar uma criança. Mas como esse não é um texto sobre estratégias de manejo de crises, nem sobre etapas do desenvolvimento infantil, deixa eu voltar ao foco.) 

Entenda, não se trata de fazer o que a criança quer, mas se trata de considerar que como uma (pequena) pessoa ela vai sentir vontade de fazer coisas, de recusar coisas, de comer coisas, de viver experiências. E o fato dela sentir vontades, identificá-las e externá-las é algo normal, uma parte importante da construção dela como pessoa. Sacam? E o “pulo-do-gato” está em o adulto da relação conseguir validar isso. 

Sim, você precisa validar as vontades da sua criança. Validar significa reconhecer como algo existente, como algo presente, como algo até compreensível e natural. E validar não é só reconhecer internamente, é também verbalizar -com todas as letras- este reconhecimento. É dizer que sim, tem lógica ela estar chateada/triste/irritada naquela situação de privação.

Preciso grifar que a psicóloga infantil aqui NÃO ESTÁ dizendo pra você fazer TUDO que a criança quer. (Repete pra mim: Ela não está dizendo pra fazer tudo que a criança quer! Não está dizendo pra fazer tudo que a criança quer. Não está… tá, cês entenderam!)

Primeiro, porque nem seria viável. Não existe um mundo onde é factível fazer tudo o que se tem vontade. (E ainda bem!🙏)

Segundo, que isto seria pura negligência! Afinal, que tipo de adulto deixaria uma criança entrar na piscina fria, num dia de inverno, só porque a criança quer? Um adulto muito sem noção!!! Não dá né!

Note que não é sobre atender a totalidade das vontades, repito, NÃO é sobre atender 100% das vontades, é sobre reconhecer a existência delas e naturalizar, ser o mais acolhedor possível com relação a isto. Tá tudo bem a criança desejar entrar na piscina, faz sentido que ela queira repetir uma atividade que lhe produziu boas memórias. E uma pessoa conseguir identificar os próprios desejos, verbalizá-los e tentar alcançá-los, enfim, tudo isso é saudável meu povo! São habilidades importantes pra vida! Lembre do adulto que não sabe o que quer? Pois então. Faz falta essa habilidade não adquirida na infância.

Atenda SE e QUANDO for possível. E QUANDO não for possível, negue, explicite o limite, e também ofereça o suporte emocional para a frustração que isso gera naquela pessoinha. Baixa a tua expectativa de que a criança vai abrir mão do desejo sem nunca demonstrar sentir nada, como se a vontade dela (que pode ser diferente da sua) não existisse. E por favor, pare de dizer pra ela que “criança não tem vontade”. Lembra disso: Ela é uma pessoa, ela tem vontade! Todo mundo tem!

Tamo combinado? Ok! Feliz Dia das Crianças então!

Sara Adaís Müller

Psicóloga Clínica – CRP 07/18608

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