Vou narrar uma experiência do meu tempo de estágio. Era setembro de 2009, estava na finaleira da graduação em Psicologia. Cursando 6 disciplinas, fazendo um estágio de 20 horas semanais, terminando o famigerado TCC – Trabalho de Conclusão de Curso – e, como se não bastasse, a doida aqui ainda entrou na comissão de formatura (onde a gente se estressa dia e noite, porque cada um quer uma coisa diferente no mesmo evento e é inviável atender a tudo!).
Depois de ir até as 2h da madruga escrevendo o TCC, acordo com o telefone tocando. Era a secretária da clínica-escola onde eu fazia o estágio final. Ela me pergunta se eu estava a caminho, pois a minha paciente das 8h já estava na recepção me aguardando há 20 minutos.
Sabe quando dá tela azul?! Eu peguei a agenda e pá! Tava lá o nome dela. Não! Não foi ela que se enganou e foi no dia errado. Eu preferia que fosse, confesso! Era eu quem tinha dormido demais, não acordei com o despertador e deixei uma paciente me esperando com cara de tacho.
Quanta vergonha!!! Eu queria que o chão abrisse e me enterrasse naquele minuto. O que eu iria dizer? Como eu iria explicar que simplesmente não fui porque tinha dormido? Ridículo! Não vou dizer isso, pensei. E daí eu falo o quê? Invento que bati o carro no caminho?! Bom, eu nem tinha carro, essa não iria colar. Pedi pra secretária dizer que eu não iria chegar em tempo, pedir desculpas, agendar novo horário e dizer que eu explicaria a ela pessoalmente o que aconteceu.
Eu ruminei muito sobre o que dizer. E minha supervisora da época foi um poço de empatia comigo. Me ajudou a perdoar a mim mesma e me encorajou a falar a verdade. Com a habilidade ninja de supervisora, ela me disse que isso poderia, inclusive, ser uma modelação nesse caso (tecla SAP: modelação é um conceito em que usamos um acontecimento real da terapia e fazemos algo que serve para modelo futuro de como o paciente pode agir em situações similares).
Lá fui eu pra sessão remarcada. Comecei dizendo que eu sentia muito por ter deixado ela esperando, que jamais faria isso intencionalmente e que eu gostaria muito de ter um motivo grandioso para dar, mas não tinha. Disse que isso me deixava profundamente envergonhada, mas ainda assim tinha escolhido ser honesta com ela e contar o que aconteceu de fato. Falei que tinha ficado até tarde escrevendo meu trabalho de conclusão e que dormi demais na manhã seguinte, que acordei só com o telefone tocando e que esperava que ela me perdoasse pelo transtorno que causei.
Eu estava com medo, me sentindo péssima e com a convicção de que essa paciente nunca mais iria voltar. Essa era uma pessoa bastante rígida, pontualíssima, auto exigente, e pouco, muito pouco tolerante aos erros. Isso era tema recorrente da terapia e, além disso, um gatilho de boa parte do sofrimento que ela trazia. Daí vou eu, a “psicoestagiária” (quem é essa na fila do pão?!) dizer que “tava dormindo”. Certo que essa mulher não volta nunca mais!
Mas veja bem, não foi esse o desfecho. Poderia ter sido. Ele me olhou e disse “até a terapeuta erra então!”. Eu disse, “Sim, e é difícil errar”. Ela riu e disse “aham, eu sei bem. Mas talvez eu possa assumir os erros né, mesmo os mais vergonhosos tipo o teu que dormiu demais quando devia estar aqui.” (Ok, eu mereci essa jogada bem na minha cara!). A supervisora ninja tava certa, que baita modelação! Eu me desculpei mais umas 20 vezes naquela sessão. E no final, aconteceu um trabalho lindo com essa cliente. Ela inclusive se autorizou a trazer mais para a terapia a própria vergonha, os erros e a gente criou um vínculo muito produtivo dali em diante.
A verdade é que, quando há abertura, – e nem sempre há! -, a exposição de nossas vulnerabilidades, o compartilhamento das nossas vergonhas, tem um poder enorme de construir vínculos genuínos e transformadores. Nos conectamos em nossa humanidade, nos reconhecemos no fracasso alheio e também nos fortalecemos na coragem de outrem.

Quanto mais você tenta ser a pessoa fodástica, sabedora de todos os paranauês e infalível, maior distância você cria. Se esse é o seu objetivo, ok. Mas se você quer mesmo criar conexão, assuma sua humanidade. Faça o melhor possível, ofereça as melhores soluções que você tem disponíveis, mas se mantenha ciente de que não é o único naquela interação que tem algo a contribuir. Como foi importante pra mim o perdão daquela cliente, aprendi com ela também.
Carrego essa lição dos tempos de estágio ainda comigo: se você quer mesmo ser um profissional autêntico e humano, esteja disposto a passar vergonha! Você vai errar feio algumas vezes… e vai acertar bem bonito também, muitas vezes! Aceite isso, dói (um pouco) menos!
Sara Adaís Müller
Psicóloga Clínica
CRP 07/18608





