Ouvi isso tantas vezes durante a infância e adolescência que cheguei até a acreditar. Sempre gostei de usar roupas mais largas (adorava roubar algumas do meu irmão), era zero vaidosa e posso dizer que a estética considerada masculina me ajudou muito e até hoje me ajuda no processo de me expressar através do estilo. Na adolescência passei a ouvir também que era um desperdício ter um corpo como o meu e não estar exibindo-o dentro de roupas mais justas ou fora delas, o que sempre me deixou extremamente desconfortável. Nela fica claro como nós mulheres somos objetificadas desde muito cedo.
Adivinha qual das Meninas Super Poderosas eu queria ser.
Confesso que não foi fácil reescrever esse texto. Sim, escrevi sobre esse tema há 2 anos, mas de uma forma muito crua, apenas bati minha revolta e palavras no liquidificador e dei enter. Infelizmente essa pauta não fica velha e seguimos falando das cobranças impostas sobre nós e nossas tentativas de desconstruí-las. Pesquisei e li diversos textos para chegar na melhor forma de expressar meu ponto e conseguir deixar claro que minha crítica não é direcionada à um indivíduo ou estilos específicos.
Há um incômodo muito grande ao ver uma mulher fora do padrão. E olha que eu sou bem padrãozuda. Quantos quilômetros separam a mulher que deve ser e agir para ser aceita na sociedade e a mulher que é viável e confortável sermos?
Nem velha demais, nem natural demais, nem exagerada demais.
Demorei pra entender que os estereótipos de gênero e o machismo somados à uma boa dose de vontade de cagar regras que as pessoas têm, eram responsáveis por esses pitacos não solicitados sobre a forma como me vestia ou sobre o fato de eu achar um porre essa obrigação de fazer as unhas.
Temos nossa autenticidade tolhida quando construímos nossa personalidade escutando que precisamos ser ou nos comportar de tal jeito. Me questiono o quanto desses danos estão aqui marcando presença nas decisões que tomamos, naquele tempo que dedicamos à fazer coisas em prol de se adequar e também no que não dedicamos à algo que de fato vá nos agregar. Até mesmo na forma como nos sentimos, aquele incômodo que está sempre ali, como um calo do qual já estamos acostumadas (a gente se acostuma com certos sacrifícios, mas não deveria).
A feminilidade não seria um problema se não viesse carregada de associações à fraqueza, fragilidade, incapacidade, se não nos aprisionasse e colocasse na nossa conta todo esse peso de ser insuficiente sempre. Vestidos românticos, maquiagens são sim questões de gosto, mas para saber o que REALMENTE gostamos e queremos, precisamos passar pela trabalheira de entender que isso TAMBÉM é uma construção social e pode vir de algo que nos foi imposto a vida inteira.
Hoje, olhando pra trás vejo que muitas vezes busquei me masculinizar (e não só no estilo, mas no comportamento também) como uma tentativa de me colocar na mesma posição dos homens e dessa forma mostrar força ou mesmo me proteger. Eu sempre tive muito medo de ser descredibilizada pelo simples fato de ser mulher, então achei que se eu não me parecesse tanto com uma sairia ilesa. Alguém avisa ela, tadinha. rs
Outro ponto são como as referências de feminino e masculino são tidas como regras, áreas delimitadas onde não é possível transitar. Na ânsia de nos colocar em caixinhas, ouvimos palpites sobre nossa sexualidade, por exemplo. Perdi a conta de quantas vezes fui questionada sobre a minha. Quando raspei a cabeça, fui confundida com um homem e também tive uma pequena crise ao sentir que não havia mais nada feminino em mim. Olhando pra trás vejo que poderia simplesmente ter cagado pra tudo isso pois eram todas preocupações ao redor de ser aceita.
Lembrei de uma matéria muito interessante de 2019 sobre o estilo da cantora Billie Eilish e a preferência dela por roupas mais largas. Ela disse:
“Eu não quero que o mundo saiba tudo sobre mim. É por isso que uso roupas grandes e largas. Ninguém pode ter uma opinião porque eles não podem ver o que tem por baixo. Ninguém vai ficar falando tipo: ‘Olha, ela é magra, ela não é magra, ela tem pouca bunda, ela tem bunda grande…’ As pessoas não podem falar essas coisas, porque elas não sabem.”
Tamo junto, menina Billie.
Entendo tanto as escolhas dela. Quem nunca preferiu uma camiseta mais larga e comprida na hora de sair para caminhar na rua? Me chateia saber que não necessariamente optaríamos por isso, mas acabamos nos moldando para evitar o desconforto de se sentir como um objeto que está ali pra ser olhado e de preferência, agradar.
Talvez você não se identifique com essa cobrança em específico mas tenho certeza que já se sentiu inadequada e por conta disso, que seria rejeitada em todos os âmbitos possíveis. O quanto vale seguir carregando esse peso que nos foi entregue?
Espero poder te fazer refletir e quem sabe, entrar nessa busca de se libertar desses estereótipos e rótulos que insistem em nos perseguir, eles oprimem as pessoas e são exaustivos. Lembrem-se que roupas devem ser complementos da nossa personalidade, formas de expressão e diversão! E que nada deixa uma pessoa mais bonita do que estar autoconfiante e confortável sendo quem realmente é. <3
Gostou do texto? Não deixa de compartilhar com uma amiga. Faz toda a diferença pra mim e torço pra que faça para ela também. ❤





