Mês que vem completa 01 ano de uma histerectomia (retirada do útero) precisei fazer para evitar problemas futuros. Foi tudo bem com a cirurgia, a recuperação foi rápida e tranquila. Fiz drenagens pós operatórias, passei pomada na cicatriz, fiz as revisões, tudo certinho. “Estar sem meu útero não me afetou em nada”, cheguei a pensar.

Aí que me enganei.
Pouco tempo depois, iniciei com um quadro de dor de ouvido. Quem já teve sabe que aquela dor que começa mansinha e vai ficando aguda até à noite beira o insuportável. A minha não passava nem dormindo.

Confesso que cheguei a pensar que poderia ser uma dor referida, fruto de tensão muscular na região do pescoço. Memórias de uma quiropraxista que chama, né? Mas sabe como é… na correria da vida, achei mais fácil ir ali tomar um remedinho. Fui ao plantão, o remedinho veio.
Sete dias depois a dor continuava a mesma e agora eu sentia que minha ATM (articulação temporo-mandibular) estava super travada. Pronto. Não era apenas uma inflamação, de fato. Lembrei da Elaine, uma fisioterapeuta nota 10 que me atendeu certa vez quando estava em crise de bruxismo. Agendei um horário e fui.Corta pra eu feliz, sem dor aguda e com a cabeça cheia de reflexões que considerei muito importantes e pretendo compartilhar aqui. Começa com a seguinte afirmação:
tem um bocado de coisas que a nossa mente racional não alcança, né?
Não temos resposta para tudo o que gostaríamos. E não é porque não sejamos capazes de compreender (ou é?). Apenas é assim que funcionamos. Gosto da ideia de Jung sobre o inconsciente: imagine você num navio em meio a uma tempestade em alto mar com uma vela acesa nas mãos. Tudo o que aquela luz bruxuleante consegue iluminar é o seu consciente. TODO o resto que não está iluminado é o inconsciente. Uau, coisa pra caramba! Até porque ele introduziu também o conceito de insconsciente coletivo além do insconsciente pessoal que Freud já havia nos apresentado…
Mas voltemos ao corpo humano. Uma cirurgia feita lá em janeiro pode ter ajudado a desencadear a dor na ATM que levei mais de 01 mês tratando e que começou com uma dor de ouvido? Sim.
Mas como?
Ao proteger (inconscientemente) o local da cirurgia (região da pelve), movimentei o diafragma (principal músculo da respiração) de forma diferente, intensificando os movimentos respiratórios da parte superior do tronco. Naturalmente, acabei tensionando mais a região ali. Minha ATM, que já é sensível, gritou por socorro.
Eu fiquei absolutamente estupefacta com essa constatação. Essa hipótese me pareceu tão plausível, fez tanto sentido pra mim… Elaine e eu conversávamos longamente sobre isso durante os atendimentos, ela teve muita paciência me explicando os movimentos dos músculos através de suas inserções, kkk… quase um review de anatomia.
De uma palestra do Contardo Calligaris, anotei a seguinte frase: “o que move o sujeito é algo que ultrapassa seu saber plenamente consciente.”
É isso. A gente não vai saber se não for atrás. E mesmo indo, investigando, não saberemos ao certo. E mesmo se tivermos alguma certeza, ainda assim não será na sua totalidade.
Que te parece isso? Talvez todo esse movimento de se lançar na busca por clareza, de pensar sobre si mesmo e buscar solução já te dê um cansaço. Tipo perda de tempo, já que nunca saberemos ao certo. Mas olha, na frase célebre de Sócrates – só sei que nada sei – há um convite implícito para a busca. Segundo ele, uma vida que não é pensada não vale a pena ser vivida. Desistir de buscar a razão das coisas, de concatenar as ideias, de refletir, seria viver uma vida muito próxima à animalidade, ao instinto, somente.
Dá pra viver assim?
Dá.
Entretanto – e aqui vou deixar de lado esses pensadores fodásticos que citei antes e argumentar humildemente segundo o que me aconteceu e originou esse texto – quando você avista uma luz, mesmo que bruxuleante, ela passa a ser seu foco, te dá uma direção. Você não vai na direção da sombra, vai na direção da luz. Eu, sabendo que a dor de ouvido que desencadeou a dor na ATM estava intimamente relacionada com o modo como eu respirava, passei a fazer exercícios para “acomodar” melhor a musculatura e os órgãos que ficaram “soltos” ali, órfãos do meu querido útero. Melhorei muito daquela dor. Claro que ela pode voltar, mas terá outros motivos que terei que investigar quando chegar o tempo.

Mas dá uma paz, sabe? Não é sobre procurar culpados, é sobre buscar soluções. É uma sensação de “pelo menos eu sei porque estou apanhando”. Muito pior é apanhar e não saber de qual lado veio o soco. Será mais difícil se defender assim. Pois autoconhecimento é esse soco na cara que a gente investiga e descobre de muitas maneiras. Uma delas – te asseguro – pode ser por aqui.
Sigamos! Feliz 2022!
Dallen.





