
Assim são 99% das fotos da minha adolescência. Com essa mão aí escondendo o nariz. É curioso, pois ao mesmo tempo que eu sofria com os apelidos na escola, muita gente me dizia “mas teu nariz nem é tão grande, nem dá pra notar” e alguns até falaram que não lembravam de como era meu nariz antes da cirurgia. De qualquer maneira, ter um nariz fora do padrão e ainda por cima torto (já que eu carregava comigo uma fratura que conquistei dando uma narigada na borda da piscina que juro – foi sem querer) me incomodava demais. Eu me achava muito feia.
Não sei dizer quando isso despertou em mim, nem a nóia do narigão e nem a nóia de que queria voltar pro narigão. Mas certamente a de voltar pra ele foi reforçada ao assistir o filme Nasce uma Estrela, que sim, sei que estou atrasada mas agora já acho que foi no momento perfeito para fomentar ainda mais minha vontade de falar sobre esse lance todo. Pois bem, alguém reparou na cena em que ele elogia o nariz dela E PASSA O DEDO NELE? A câmera fica lenta e a música fica intensa! Arrepio só de lembrar e certamente esse momento ser um dos meus preferidos do filme tem a ver com minha história com narizes.

eu assistindo a cena no avião e quase tendo um troço.
Assistir à esse filme liberou algo dentro de mim, caiu o véu que estava em frente aos meus olhos. Eu já vinha reparando em alguns perfis do Instagram (e perfis da vida real) de mulheres que tem um nariz não operado e fora daquele padrão “narizinho Michael Jackson” (será que é errado eu usar essa referência?) e pensando: “essa beleza me agrada”. De começo esse pensamento vinha tímido…Não queria aceitar, não queria dar atenção pra ele.
“Pra que cavocar nisso, Amanda? O que tá feito, tá feito. Lembra o quanto tu sofria? Nossa… como eu sofria, né? Credo. Eu preciso escrever sobre isso.”
É tipo assim que acontece na minha cabeça, mas eu deixei mais bonitinho pra vocês.
Tem um ponto que me pegou nessa história toda: o moço ama o nariz que todo mundo fala que é feio. O moço não só a aceita, ele se apaixona.
Já falei em alguns textos sobre minha autoestima, rivalidade feminina, relação com homens…Volta e meia eu tô falando como eu sempre fui alguém que precisava muito da validação dos outros pra ficar tranquila comigo mesma. Se eu não me cuidar, ainda hoje posso acabar indo por esse caminho meio esburacado que é o de querer agradar todo mundo.
Veja como é confuso tudo isso. Eu não conseguia me aceitar, só de pensar em ficar perto do menino que eu gostava e da possibilidade de ele reparar no meu nariz, eu entrava em pânico. Agora, mais de 10 anos depois eu assisto um filme onde um cara elogia o nariz da mulher e eu fico toda besta tipo “AI COMO EU QUERIA QUE TIVESSEM DITO ISSO PRA MIM.”
Me assusta o quanto eu simplesmente não conseguia EXISTIR com aquele nariz, o quanto isso me privou e angustiou. Isso tudo por conta da minha aparência, por conta de como os outros iam me ver. Os outros. E eu, que colocava todo esse poder nos outros.
Claro que eu não tinha maturidade e as ferramentas que tenho hoje, mas muitas vezes eu dava muito mais peso pra isso do que as pessoas ao meu redor. Naquela ânsia de controlar tudo e mostrar que eu estava sempre pronta pra tirar uma com a minha própria cara, eu já chegava entregando o jogo: Oi, eu sou a Amanda e tenho nariz grande. Piadas e rejeição neste guichê. E os outros, provavelmente preocupados com suas próprias questões: seu peso, seu cabelo, sua celulite, seu pinto pequeno.
Talvez essa carga toda se dava pela construção de que nós mulheres temos o nosso valor diretamente atrelado à nossa aparência? Não tenho dúvidas de que esse é um dos motivos. Também não tenho dúvidas de que esse problema segue em alta e assombrando a todas nós. Quando nos livramos de um (seja aceitando ou seja mudando), surgem outras 299 tentativas de nos tirar do prumo. Precisamos nos encaixar lá e o lá nunca chega.

como eu me sinto correndo atrás de caber em todas as caixas que a sociedade patriarcal pede.
Outra lembrança que acessei ao escrever este texto foi a de que pouco tempo antes da cirurgia eu hesitei. Lembro de falar pra minha mãe: “Talvez só arrumar a fratura? Manter o carocinho do nariz, vai que eu me arrependa depois?” Mas rapidamente fui convencida do contrário e mandei essa ideia pra bem longe.
Hoje eu tenho vontade de voltar no tempo, me abraçar, e dizer: ”Calma, criatura, calma. A gente é tão mais do que o nosso nariz. Não precisa se afobar pra fazer uma mudança estética. Arruma só essa fratura então. Ou melhor, nem arruma nada, vamos pra terapia de uma vez que o caminho é longo.” Mas claro, isso é só uma fantasia, já que mesmo que a Amanda do Presente aparecesse pra Amanda do Passado e tentasse convencê-la, não iria adiantar. Ela provavelmente iria operar. A não ser que eu pudesse fazer um download da minha cabeça de hoje, na cabeça de ontem.
O que eu queria com esse texto era tentar dividir e organizar o turbilhão de pensamentos que vem rolando na minha mente nos últimos tempos a respeito da minha imagem, dessa febre de cirurgias cada vez mais precoces, gente com a cara toda igual e a energia e tempo (nosso precioso tempo!) que a gente despende se odiando, se cobrando e culpando por não corresponder à um padrão irreal.
Se eu não tivesse feito a cirurgia, talvez eu a fizesse hoje de todo o modo. E tudo bem, sabe? Eu olho pra minha plástica como uma forma de resolver, de literalmente tirar da frente um problema que me tirava o sono (sem falar no privilégio que foi ter a possibilidade de fazer isso, então longe de mim cuspir no prato). O que eu não sabia era que esse problema tinha muito mais a ver com a parte de dentro do que de fora, e esse é um detalhe tão, tão sutil, que é até fácil de ele passar batido. Gostaria de ter a possibilidade de experimentar meu antigo nariz nessa nova Amanda.
Não deixe tua parte de dentro passar batido, viu?

Com amor, Amandita.
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