Olá. O que você se tornou quando cresceu? E o que você ERA e teve que mudar pra se encaixar ou queria ser mas não se permitiu devido expectativas alheias e construções sociais?
Aqui não falo só da parte profissional. Falo de jeito de ser como personalidade mesmo, de gostos e desejos. Eu me tornei fotógrafa, depois escritora, uma pessoa muito sentimental, pacificadora (buscando seguir nesse caminho mas sem ser passiva). Quando criança passava longe de performar feminilidade e delicadeza. Era zero vaidosa, portanto era comparada com um menino, mas queria me sentir bonita, me aceitar. Do meu jeito. Gosto de ter meus momentos sozinha mas também gosto muito de companhia pra pagar conta na lotérica e sou movida a abraços.

Estou trazendo aqui alguns pontos que por um tempo foram contraditórios pra mim e me causavam certa dificuldade em me aceitar como sou, muitas vezes pelo fato de serem atributos considerados fraqueza pela sociedade.
A cobrança de nos encaixotarmos começa desde muito cedo: se ela não gosta de pentear o cabelo, é desleixada, não existe espaço pra desenvolver seu estilo, sua “vaidade”. Se ele não brinca com os outros meninos, ih, já sabe: é gay. Ao invés de estimularmos naturalmente a pluralidade, tolhemos.
Fazendo um comparativo na minha própria vida – afinal essa é a nossa dinâmica: eu me exponho pra ti não se sentir tão só com teu demônios -, já falei muito sobre gostar de usar peças de roupas consideradas “masculinas”, cortes mais retos, roupas largas, não ser adepta à maquiagem, etc… tu pode ler mais sobre esse trauma aqui.
Esse é um traço meu que vem da infância, que já causou muito conflito (interno e externo rs), mas que abracei e acredito fazer toda a diferença no meu estilo, tornando ele – atenção: zero modéstia agora – autêntico. É algo que vem de dentro. (Ei, Dallen Fragoso passou por aqui: “Looks incríveis vem de dentro!” kkkk)
Outro ponto é: sou uma pessoa comunicativa e uma das minhas linguagens do amor é o toque. Sou extremamente tátil. Também gosto muito de elogiar, dar atenção e agradar os meus queridos. Sim, isso pode ser perigoso se você não faz terapia (🤣) mas se você aprende a direcionar esse afeto de uma forma saudável e com atenção pros seus próprios limites, considero um ponto fortíssimo que nutre as relações e as torna mais profundas.
Agora o contraponto. Ouvi a vida toda: “Pessoas boazinhas só se fodem.” (Lembra da comunidade no orkut? eu fui, eu tava). É preciso se fechar pra se proteger. Não dá pra se entregar, confiar, se expressar por inteiro pois nos colocamos como vulneráveis e assim as pessoas nos tem nas mãos.
Ora, se me colocar como vulnerável não é algo que tenho feito INTENCIONALMENTE inclusive? O risco de me machucar não me assusta mais do que viver uma vida pela metade.
Se eu não tivesse me colocado como vulnerável não estaria competindo no jiujitsu e não saberia o quão realizada eu poderia ser nesse ambiente. Não teria me aberto pra minha relação amorosa que me preenche e me traz tanta certeza.

Na parte profissional também me deparei com tais contradições. As “regras” dizem que é preciso escolher um nicho e se especializar nisso. E tempo é dinheiro, então nada de perdê-lo com coisas que não agregam nesse sentido. Aquilo que te preenche fica pra quando tu tiver com “estabilidade”, sem lembrar que o amanhã é uma grande incerteza e que esse momento pode nunca chegar. Uma coisa não precisa excluir a outra, eu sei, mas vamos trabalhar com o pezinho no chão? Quem aqui não tem sonhos, projetos, vontades que não envolvem nenhum retorno financeiro e que ficam lá mofando na lista de metas? Até mesmo dentro do nosso próprio trabalho que paga as contas.
Certa vez ouvi de um publicitário metido: tu precisa escolher uma área da fotografia. Desse jeito não dá pra saber direito o que tu faz. (Sobre eu postar fotos de família, retratos femininos, de viagem, cachorro e papagaio.)
Indo nessa onda eu decidi que seria fotógrafa apenas de retratos femininos e que faria minha comunicação em cima disso. No fim, me senti engessada e frustrada, me peguei vendendo um discurso que nem eu acreditava. Perdi a chance de me conectar com famílias, crianças, formandos, profissionais que no fim das contas, são pessoas e ouvir e retratar suas histórias é o que faz o meu trabalho ser tão potente. A força da minha expressão se perdeu. Eu não conseguia me aprofundar.
Há quem diga que perdemos energia ao focar em mais de uma coisa ao mesmo tempo. Não discordo. Mas não estamos falando apenas de tarefas, estamos falando de algo muito maior e que não pode ser simplificado, afinal um ser humano e suas aspirações não têm nada de simples.
E convenhamos, esses rótulos que nos dizem que devemos isso e aquilo são meramente ilustrativos. No fim das contas, tem coisas que a gente simplesmente NÃO FAZ, por mais que a gente ACHE que queira muito e passa uma vida se martirizando por não fazer. Como uma dieta, que parece simples de seguir e na prática sabemos que ela só acontece na segunda feira e depois nunca mais. E vivemos num looping de culpa.
É preciso ajustar as expectativas. De paciência, do sentir, de tempo e produtividade. Redesenhar uma forma de viver diferente da que aprendemos. Uma forma sustentável e mais gentil com toda a nossa complexidade.
Não se engane, esse negócio é zero fácil de entender e resolver. É um grande emaranhado que mistura preconceitos, machismo, racismo, medos, cultura…Mas sim, eu boto fé que no nosso mundinho individual a gente consegue ir se desprendendo dessas amarras pra ser um tiquinho mais leve e feliz. Esse é mais um texto sobre a busca de estarmos em paz na nossa própria pele.
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