
Alguém mais aí tem sentimentos ambivalentes quando escolhe ativar a aceleração máxima dos áudios no WhatsApp? Um alívio e uma culpa, dependendo da situação? Ou um “fala logo, desembucha” com “peraí, vou voltar porque nem entendi”? Talvez eu seja a única que conflita com essa ótima função tecnológica.
Sim, vivemos tempos enlouquecidamente acelerados. Poder agilizar assuntos, concluir pendências em tempo recorde, ir direto ao ponto na conversa… fatores que estão no quesito “facilidades” que a gente não deveria recusar, né? Sabemos que há correria suficiente no nosso modo de vida e que a promessa de economia de tempo é um luxo do qual queremos (muito) usufruir.
Mas tem uma parte da nossa experiência, da nossa humanidade, que não é atendida com a redução dos segundos de uma conversa. E é dessa parte que quero falar.
Você já notou como é bom ser ouvida? Assim, de verdade, ouvida? Para mim, ser ouvida é também ser amada. Das pessoas que encontro pela vida, considero poucas as que realmente ouvem! Boa parte delas não vai além do óbvio, do simples uso do sentido da audição.
Quando você de fato ouve alguém, não se envolve em outras atividades enquanto a pessoa fala, não se preocupa em olhar a propaganda na TV, nem conferir seu e-mail agora. Quando você realmente ouve alguém, não se ocupa de apenas obter as informações que lhe interessam pontualmente. Bem mais do que isso, quem ouve, atenta para o que não foi dito, presta atenção aos significados e quiçá até nota sentimentos que nem estavam tão explícitos. Quem verdadeiramente ouve, recusa-se a interromper o ritmo por motivos tolos. Antes, com empatia, faz perguntas que demonstrem o interesse, que expressem o desejo de ampliar a compreensão e alongar a conversa.
A verdade é que ouvir exige esforço, exige tempo! E em dias como os que estamos vivendo, tempo é algo que NUNCA sobra. Se você esperar ter tempo, jamais conseguirá ouvir alguém. Eis um segredo daqueles que sabem ouvir: estar disposto a abrir mão de um pouquinho de si e dos próprios afazeres para CRIAR momentos em que, sem pressa, seja possível emprestar-se. Não apenas emprestar os ouvidos, mas emprestar-SE, integralmente, à necessidade de outro!
Perceba que a escuta não tem por objetivo necessariamente uma conclusão máxima, um grande conselho, uma solução incrível, um resultado definitivo. Ela é essencialmente um movimento de abertura pra conhecer a experiência do outro. O que gera, na maioria das vezes, conexão. E acho que esse é um ponto relevante: a gente fica muito preso na tal produtividade e descarta o que parece que não vai levar a “lugar nenhum”. Encerramos brevemente aquelas conversas sobre processos, emoções, amores, crises, aqueles papos que não resolvem nada, mas que ao mesmo tempo (esquecemos) nos causariam uma baita aproximação e trocas.
Você já observou se fica desconfortável quando alguém que você gosta e com quem se importa fala de coisas aparentemente sem solução concreta? Como você se sente enquanto seu cérebro tenta rastrear uma alternativa resolutiva para concluir aquela conversa? A coisa de tornar tudo imediatamente “produtivo”, saca? Como é isso pra você? Você consegue ouvir, acolher, conectar, apoiar, mesmo se não for pra “resolver”?
Tá tudo bem (ou talvez a fonoaudióloga te diga que não tanto?! 😅) acelerar o áudio pra economizar seu tempo naquela situação “X” e logo enviar o retorno. A agilidade é muito válida. E não, não tem como ouvir todo mundo (Credo! #DeusMeLivre! Kkk). E nada de ficar atucanando a colega de trabalho com 200 áudios que poderiam ser um e-mail né? Tenha noção meu bem, noção!

Ao mesmo tempo, recomento fortemente que você mantenha algumas relações com as quais não precise correr. Falo aqui de intimidade, entende? Tenha gente pra quem você possa mandar áudios “longos” sabe? (Quando foi que 5 minutos virou tempo “demais” pra ouvir?). Tenha pessoas de quem você possa receber áudios e não fazer questão alguma de acelerar. Tenha gente pra quem te ouvir, no seu próprio ritmo de fala, com seus suspiros e pausas, por 10 ou 15 minutos, não seja um problema. Ouvir de verdade não é exatamente sobre agilizar, é sobre apreciar, trocar, sentir-se conectado e dar a alguém o privilégio de ser compreendido.
Me sinto feliz pelo privilégio de ter e também por ser esse tipo de pessoa para aqueles com que verdadeiramente me importo. Coisa boa isso… né?!
#desacelera #SintoLogoExisto






