
Fazemos tantas coisas. Por dever. Por recomendação. Por obrigação. Por evitação. Por prudência. Por necessidade. Fazemos inúmeras coisas, por inúmeros motivos. E essas razões, em grande parte das vezes, são realmente válidas. Mas fazemos pouca coisa SÓ por querer fazer.
Talvez sejamos ensinadas demais a não alimentar o desejo. Quando se diz que alguém fez algo “por querer”, o que te vem à mente? Que fez algo ruim, e pior, fez aquilo de propósito! Ah, que terrível é alguém ter feito por querer! Como pôde fazer isto intencionalmente?! Você já notou que o tal do “fez por querer” dificilmente é usado em um contexto positivo? Consegue ouvir ao seu redor algo como “a fulana é muito cheia das vontades”, dito naquele tom de desaprovação?

Parece que querer e assumir o que se quer é quase… algo feio! E assim, vamos assimilando que o bom mesmo é que as vontades não sejam muito atendidas. Aprendemos indiretamente que desejos podem crescer e se tornarem perigosos, eles podem tornar pessoas obstinadas ou excessivamente ambiciosas. A mensagem é que se você não for cuidadosa, poderá ser dominada por um desejo! Ou pior, poderá sentir o amargor de um arrependimento por ter obtido exatamente o que desejava. E de tanto “cuidado com o que deseja”, presumimos que é mais seguro não “querer demais”. Caímos na armadilha! Reproduzimos apenas as obrigatoriedades da vida. Pecado cruel cometemos contra nós mesmas!
Lembro de uma ocasião em que meu parceiro de vida (o moço gentil que é meu marido – @jonasfilho), me deu algo que eu queria e de pronto externei aquela clássica: “nossa, mas não precisava!”. Sim, todo mundo conhece essa resposta clichê que a gente dá quando se constrange ao receber algo inesperado. Ele me disse: “ok, não precisava… mas é que a gente não faz só o que p-r-e-c-i-s-a… né?!”. E essa frase fez muito eco dentro de mim. É verdade, somos dotados de Vontade. Com V maiúsculo. E se temos essa tal capacidade de desejar, acho que pode ser usada né?
Use a sua vontade, ela pode ser boa! Não significa irresponsabilidade com seus atos. Não significa fazer tudo o que se quer, sempre, totalmente, cem-por-cento, toda vez, infinitamente… até porque, sabemos que a realidade se encarrega de nos impor seus próprios limites. E sabemos também que se permitir desejar não é só questão de querer, afinal estamos num mundo bastante desigual e algumas coisas só são imagináveis a partir de uma camada de privilégios. Sejamos realistas, querer não é poder, ao menos não em 90% das vezes!
Mas “faça por querer” aquilo que é simples, se isso te é possível, se isso te faz sentido no momento.
Tire uma folga. Vá ao passeio. Use aquela roupa. Fale sobre o treco aquele que tu queria falar. Abrace. Dê o presente sem a data. Beba na taça bonita, em plena terça feira. Faça o curso aleatório de pintura que tu queria fazer, mas não fez por pensar que não vale a pena, já que não é algo relativo ao teu trabalho. Ligue, só porque quis ligar. Visite a pessoa aquela. Faça a tal viagem lá pra onde o Judas perdeu as botas, mas que tu queria muito ir. Ria da piada sozinha, tanto, até doer o estômago. Ponha os pés em cima da cadeira. Bagunce. Tire o faqueiro lindo da gaveta, aquele que foi presente de casamento e que tu deixa para usar só no dia de receber visitas, ao mesmo tempo em que esquece dele no jantar em que a visita vem e depois lembra que não usou, de novo! Putz! Coma um doce. Ou recuse o doce que tu iria aceitar apenas por educação. Realize algo porque naquela ocasião, naquele dia, você sentiu vontade de. Faça algo sem a dita cuja da necessidade. Sem ter que explanar para si mesma uma justificativa utilitária plausível.
Faça e faça SÓ “por querer”. É libertador!
#VidaDeTerapeuta #SintoLogoExisto
Sara Adaís Müller – Psicóloga Clínica






