Um convite gentil à reflexão, ao questionamento e ao cuidado.

Precisei catar um tanto de coragem para escrever aqui. Estar no meio de mulheres incríveis como a Sara (que por sinal é minha esposa), a Dallen e a Amanda me deixa um tanto intimidado. Ao mesmo tempo, compartilhar parte do meu jeito de olhar para o mundo é um valor de vida que trago comigo, algo que considero importante.
É um exercício que me desafia, provoca e me mantém curioso para aprender mais. É um reforço acerca do quanto não sei, um lembrete do quanto preciso e quero me distanciar de um lugar de arauto da verdade. Para muitos homens esse é um lugar conhecido: o dono da razão. Talvez essa seja uma das coisas que aprendi com meu pai, mas vamos falar mais sobre isso depois.
Dito isso, penso ser importante afirmar que não pretendo ditar verdades ou estabelecer “O” olhar correto sobre a vida. Minha proposta é que cada palavra seja um convite gentil à reflexão, ao questionamento e ao cuidado. Talvez algumas percepções sejam fortalecidas ao longo desse processo, o que poderá ser bastante importante.
Pois bem, esse texto não é sobre um herói sem capa, ou sobre o melhor pai do mundo.

Meu pai nunca participou dessa competição, caso ela exista. E se existir, como será que avaliam esse desempenho? Viajei aqui!
Meu pai é um homem real, normal, com qualidades e fragilidades. Sua história é marcada por muitas experiências e aprendizagens, algumas delas bem difíceis de ouvir. Ele também não teve o melhor pai do mundo. E quando ouço algumas dessas vivências penso que ele conseguiu encerrar alguns ciclos e não repetir isso em nossa relação.
Naturalmente, ao longo de nossa história noto alguns ecos fazendo barulho. Penso que ele fez o que acreditava ser melhor para me educar e ensinar. E ao mesmo tempo, noto que algumas mudanças têm sido importantes para mim. Em muitas questões ele foi e é um exemplo sobre o tipo de homem e pessoa que quero ser, e também sobre marcas que não desejo carregar em meu futuro.
Meu pai começou a trabalhar aos 14 anos, como engraxate – essa não é uma história de superação, ou que romantiza a privação e a dificuldade pelas quais muitas pessoas passam –, e trabalhou muito ao longo de sua vida. Eu admiro isso nele! Foi um homem esforçado e, dentro do possível, buscou cuidar de nossa família. Éramos seis! E não éramos o livro de romance ou a novela. Quando se vem de um lugar de privação e dificuldades financeiras, tudo o que você quiser conquistar exigirá muito esforço.

Ele terminou seus estudos com perto dos 54 anos. Fez o Ensino médio e depois uma faculdade de serviço social. Era tão bonito ver ele sentado na cama, com um notebook no colo fazendo seus trabalhos e assistindo as aulas!
E depois de formado, fez ainda uma pós-graduação. Não atua na área de formação, mas conseguiu com muito empenho. Algo que a vida me ensinou com essas experiências é sobre o quanto é difícil sonhar quando o contexto em que vivemos não tem condições de atender às nossas expectativas. Ainda assim, podemos tentar construir alguns caminhos para chegarmos mais perto do que nos importa.
Naturalmente, passamos por alguns momentos em família bastante doídos para todos. Lembro-me de uma conversa em que compartilhei com ele o que estava sentindo e pensando, e como era difícil para mim vê-lo tendo alguns comportamentos diferentes daqueles que ele havia me ensinado desde a infância.
Foi uma conversa dura e muito honesta. Nessa época passamos quase um ano sem ter muito contato, e após esse momento de reconciliação, nossa relação melhorou bastante.
Reparar relações é sempre um desafio.
Exige de nós um tanto de fé no outro, soltar das mãos nosso senso de justiça e abrir espaço para que as feridas se curem. Aprendi na relação com meu pai que o perdão é um caminho para ser trilhado de forma consciente, cuidadosa e disposta a amar.
Os homens aprendem lições muito duras desde muito cedo, e isso aparece em diversos momentos da vida. Isto interfere em aprendizagens importantes para lidar com situações difíceis ou que envolvam maior carga emocional.
Uma dessas lições, que nos atravessa muito, é a “regra” de que não podemos chorar. Isso cria uma equação que não dá conta da vida, e nos ensina a lidar com a dor de formas muito inadequadas. Essa lógica cria a dificuldade de entrarmos em contato com algumas emoções, principalmente aquelas que denotam vulnerabilidade.
Estar vulnerável associa-se a ideia de fraqueza, demérito. Como se chorar representasse falta de vigor, “macheza”. Sentir a vida tornaria os homens, nessa lógica, menos viris.
Quando perdemos minha irmã, que faleceu em novembro de 2020, após alguns anos de tratamento contra um câncer, fiquei bastante preocupado com minha família, com meu pai, pois era provável que ele, por ser homem, se colocasse numa condição de não poder chorar, sofrer, sentir sua dor de forma acolhedora e cuidadosa consigo. Homem não pode chorar, e tem que aguentar tudo “no peito”, não é?
Lembro que ele estava visivelmente emocionado, mas tentava segurar o choro. Lembro que quando nos abraçamos em família perto do final do velório eu disse a ele que ele poderia chorar, e que estaria tudo bem! Ele seguia tentando segurar…
Foi doído ver meu pai sofrendo e não se permitindo compartilhar sua dor.
Talvez eu tenha ensinado algo a ele ali. Aprendi com a vida e com minha formação que podemos lidar de formas distintas com as coisas e precisamos questionar certas regras vigentes em nosso tempo, que não contemplam nossa necessidade emocional.
Já parou para pensar o quanto isso é desumano e cruel com os homens, desde sua infância? Nós criamos e mantemos certas regras sociais que não consideram o contexto de vida, condições naturais à nossa existência. Quais as chances de uma pessoa emocionalmente reprimida ter dificuldades na vida adulta?
Alguns dias depois fiz uma chamada de vídeo com ele. Conversamos bastante e choramos juntos ao telefone. Foi um momento doloroso e muito bonito! Sou um homem sensível e isso exige bastante de mim. Aprendi a tentar sentir a vida de forma honesta, e acho que pude ajudar meu pai a fazer isso, pelo menos um pouquinho.

Aprendi com ele que a gente pode se reinventar também, ainda que não sejamos perfeitos e não apaguemos as partes doídas de nossa história. Dá pra tentar viver de um jeito diferente, sendo homem. Precisamos olhar para nossas experiências de forma mais flexível e acolhedora.
O que aprendi com meu pai é que a perfeição não é uma condição para a suficiência. Podemos aceitar nossa vulnerabilidade e construir relações significativas. Podemos ser autênticos, mudar o que não é tão legal e acolher nossas fragilidades.
Ele é o pai que eu tenho e eu aprendi que isso, para mim, é suficiente.
Jonas Filho (@jonasfilho.psi), psicólogo e filho do “Seu Jonas”.





